segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Recordar a Diva

no 10º aniversário da sua morte.


Até custa a crer que Amália já morreu há dez anos. Como o tempo voa. Mas é bom ver que Portugal não a esqueceu nem vai esquecer tão cedo. Os projectos para celebrar esta efeméride multiplicam-se, sendo o mais interessante, na minha opinião, o projecto Amália Hoje. Magnífico o tema A Gaivota cantado pela poderosa voz de Sónia Tavares (fica para outro post).

Mas aqui fica a original, a única e inigualável Amália. A voz inesquecível duma mulher que sofreu toda a sua vida de uma gravíssima depressão e que se vivesse hoje andaria a tomar anti-depressivos e andaria tão alegre que nunca teria escrito estas palavras amarguradas que com tanto sentimento cantou.

Existe uma tendência muito grande para conotar Amália ao Estado Novo e ao Portugal triste e cinzento do tempo da outra senhora, mas a tristeza de Amália era só dela, vinha-lhe da alma. Não era o espelho de um país, era o espelho do seu coração.




E vocês gostam de Amália? Contem-me coisas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Mudar de vida

Muda de vida, se não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não podes viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


Quando era pequena sonhava com aventuras maravilhosas na minha vida de adulta. Nessa época eu desejava que a minha vida fosse um enorme filme do Indiana Jones. Cresci, e tornei-me uma adulta demasiado séria, a pessoa menos aventureira ao cimo da terra. Mudanças? Não. Deixa estar tudo como está. Pelo menos isto eu já conheço. Arriscar? Não. Deixem-me estar quieta aqui no meu canto.

Fiquei com muito medo de mudanças. Qualquer mudança era para mim um bicho de sete cabeças. Sentia a necessidade de mudar, mas não conseguia concretizar a mudança. Inventava mil desculpas, muitas delas válidas, para deixar tudo na mesma.

Desde há pouco mais de um ano estou a tentar mudar. Estou a tentar aceitar as mudanças, embarcar nelas sem medo do que elas me possam trazer. Arriscar, ainda é para mim muito difícil. Tenho medo do imprevisível. Mas agora já sou capaz de mudar, de fazer, de procurar aquilo que quero, apesar de os caminhos nem sempre serem fáceis.

Às vezes temos mesmo de mudar de vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A luz que nos guia


Adoro faróis. Adoro o seu significado. Aquela luzinha que brilha no escuro e guia quem anda perdido no mar. Quem nunca se sentiu um pouco perdido, sem saber qual o melhor caminho? Acho que todas as pessoas numa fase ou noutra da vida têm essa sensação.

O farol é para mim essa metáfora da luz que nos indica o caminho. Às vezes, o farol é uma pessoa. Outras vezes é uma situação. Mas quase sempre acabamos por descobrir que o farol está cá dentro, quando nós mesmos escolhemos aquele que sabemos ser o melhor caminho. O nosso caminho.

A foto mostra dois faróis, um pequenino, na doca de Oeiras, e o grande Bugio, ao longe, no meio da foz do rio Tejo.

Estou numa fase de escolha de caminhos. Espero que todos os faróis me ajudem a iluminar esses novos caminhos. Espero que as luzes não se fundam e que os faroleiros não adormeçam. Se é que ainda existem faroleiros!

sábado, 19 de setembro de 2009

Fui para a cozinha para me animar

Definitivamente, chegou o Outono. Dizemos adeus às sandálias, às blusinhas de alças, à praia e aos constantes passeios ao ar livre: até para o ano. Recolhemo-nos, viramo-nos mais para dentro, para a casa e também para a cozinha. Sou daquelas pessoas que segue muito o ritmo das estações e recolho-me no Outono. Mas este ano estou a exagerar. Nestes últimos dias praticamente não tenho saído, pareço uma reclusa. É de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Também ando sem paciência para a campanha eleitoral. Já quase nem ligo a televisão, não vá dar de caras com políticos, raios os partam a todos. Já não posso ver as caras deles, de nenhum deles. Não me interpretem mal, no dia 27 eu vou exercer o meu direito de voto, como sempre faço. Mas falta-me pachorra para tanta politiquice. Tenho-me então virado para a leitura. Continuo com Joanne Harris, agora A Praia Roubada. No intervalo folheio livros de receitas. E é assim o meu Outono, como podem ver, muito animado.


Chegamos então ao que interessa, com este tempinho mais fresco vem logo a vontade de fazer bolachinhas ou biscoitinhos em casa. Principalmente quando nós andamos macambúzias e armadas em freiras em clausura e a terapia de fazer (e comer) doces parece ser a única salvação. Segui, com algumas adaptações, a receita do livro Le Cordon Bleu – Receitas Caseiras de Biscoitos.

Biscoitos de Gengibre

Ingredientes:

70 g manteiga sem sal
160 g de açúcar
1 ovo
Duas colheres de sopa de melaço
240 g de farinha sem fermento
1 colher de chá de gengibre moído
Pitada de canela moída
Açúcar granulado fino para revestir


Preparação:

Forre dois tabuleiros de ir ao forno com papel vegetal.

Com uma colher de pau ou uma batedeira, forme um creme com a manteiga e o açúcar, até obter um preparado leve e fofo.

Adicione o ovo aos poucos, batendo entre cada adição, e junte depois o melaço, batendo bem.

Peneire a farinha com o gengibre moído e a canela, misturando na base de manteiga. Forme uma bola de massa com as mãos, embrulhe-a em película aderente e coloque no frigorífico durante uma hora e meia ou até que fique firme.

Divida a massa em quatro partes e, utilizando as palmas das mãos, forme uma corda com cada um dos pedaços. Corte cada uma destas cordas em dez pedaços e forme pequenas bolas. Espalhe o açúcar num prato. Passe cada bola de massa pelo açúcar, coloque-as nos tabuleiros já preparados deixando bastante espaço de umas para as outras e achate-as ligeiramente. Coloque o resto da massa no frigorífico até que volte a precisar dela. Leve os biscoitos ao forno durante 10-15 minutos, ou até que fiquem dourados.

Gostei muito do resultado final. Nunca tinha usado o melaço e acho que ele influencia bastante o sabor final. Acho até que os biscoitos deveriam mudar de nome e passarem a ser biscoitos de melaço e gengibre.

E é assim que uns biscoitos alegram um pouco um dia muito cinzento.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Hoje o árbitro sou eu


A Liliana passou-me o desafio de mostrar 10 cartões vermelhos. E eu fiquei logo com vontade de levar o apito à boca e a mão ao bolso. E levantar o cartão vermelho bem alto.



1 - Cartão vermelho à falta de civismo em geral. Vivemos em sociedade, se não nos respeitarmos uns aos outros, a vida torna-se caótica. Muita gente mostra terrível falta de civismo no seu dia-a-dia para com os outros habitantes. São pessoas que não conhecemos, mas que temos de respeitar, certo?

2 - Cartão vermelho aos preços exorbitantes das casas em Lisboa, provocadas pela especulação imobiliária, e que afastam a classe média (baixa e mediana) da cidade, obrigando-a a comprar casa nos arredores.

3 - Cartão vermelho às leis que permitem que muito património arquitectónico desta cidade (país) permaneça num enorme estado de degradação. A minha eterna luta.

4 - Cartão vermelho às ligações pouco claras entre os políticos e as grandes empresas/ os grandes negócios. Quando é que a política vai deixar de ser um tacho?

5 - Cartão vermelho aos pais que superprotegem, mimam e não impõe limites aos filhos.

6 - Cartão vermelho à endémica falta de médicos neste país. Porque insistem em não abrir mais cursos de medicina? Nós precisamos de médicos, logo devíamos formá-los. É para isso que servem as universidades, não para formar mais e mais desempregados.

7 - Cartão vermelho à sobrevalorização da adolescência. Não sei se já repararam que agora a adolescência é o ponto alto da vida do ser humano? A partir daí é sempre a cair. Isto é muito perigoso porque a adolescência é possivelmente a fase mais estúpida por que o ser humano passa no seu processo de vida. Aquela fase em que achamos que sabemos tudo mas na verdade não sabemos nada.

8 - Cartão vermelho aos Velhos do Restelo que continuam a existir em grande número.

9 - Cartão vermelho às pessoas que não têm sentido de humor. Bolas, não podem emigrar?

10 - E, por fim, um grande cartão vermelho aos homens que só sabem falar de futebol!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cinco Quartos da Laranja

Há muito tempo que não participo na nossa Academia dos Livros. Eu tenho lido bastante, mas a preguiça de postar sobre os livros tem sido muita. Desta vez fiz um esforço para combater essa danada da preguiça e aqui está o post.
Sugiro a leitura do livro Cinco Quartos da Laranja de Joanne Harris. Desta autora ainda só tinha lido Chocolate, que tinha gostado bastante e apesar de ela já ter publicado vários livros ainda não tinha voltado a ela.
Comprei o livro em inglês, o que para mim tem várias vantagens, é mais barato e permite o treino da língua inglesa, mas é óbvio que está editado em português.


É um livro muito belo, muito diferente de Chocolate, no sentido em que é mais duro, mais forte, mais amargo, mas parecido na abordagem de um universo mágico: a França campestre, com os seus aromas, os seus sabores, as suas paisagens e mitos. O rio Loire, os seus peixes, as suas correntes fortes, tornam-se personagens do livro, assim como Les Laveuses e Angers, as povoações onde a acção decorre. As pessoas têm nomes de frutos: Framboise, Reine-Claude, Cassis, Pistache, Prune… e os apelos ao paladar são tantos que ficamos com vontade de ir para a cozinha preparar geleias, crepes e toda a espécie de delícias.

Mas, no livro, estas delícias são temperadas com o azedume de uma relação gelada entre mãe e filhos. Framboise fala assim de sua mãe:
“Nunca vi a minha mãe chorar. Raramente sorria, e apenas na cozinha com a sua paleta de sabores na ponta dos dedos, falando para si própria – pensava eu – sempre no mesmo murmúrio monocórdico, dizendo os nomes das ervas e das especiarias – “canela, tomilho, hortelã-pimenta, coentros, manjericão, açafrão” – e fazendo comentários monótonos. “Vê o lume. Tem que estar na temperatura certa. Se estiver muito baixo a panqueca fica ensopada. Se estiver muito alto, a manteiga queima-se e a panqueca torra.” Compreendi mais tarde que ela estava a tentar educar-me. Eu escutava porque via nos nossos seminários da cozinha a única forma de ter um pouco da sua aprovação, e porque qualquer boa guerra precisa da sua ocasional amnistia. Receitas campestres da sua Bretanha eram as suas favoritas; as panquecas de milho sarraceno que comíamos com tudo, far breton, kouign amann e galette bretonne que vendíamos em Angers, juntamente com o nosso queijo de cabra, salsichas e fruta.”

Como só tenho o livro original, fiz uma tradução livre deste pedacinho, para vos dar uma pequena ideia desta obra. Espero que ela vos aguce o apetite para ler o livro e para cozinhar um crêpe framboise...


E como estou em maré de delícias gastronómicas francesas, não resisto a pôr aqui umas fotos duma sobremesa maravilhosa que a minha mãe fez e que eu adoro. Poires au vin rouge, ou como diz o meu pai, Pêras Bêbadas!


Eu acho que a minha mãe é uma grande cozinheira. Para mim a melhor comida do mundo é sem dúvida a da minha mãe. Mas os doces não são o seu forte. Mas se há sobremesa que ela faz bem é esta. É verdadeiramente divinal. E tem tudo a ver com o livro.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O descanso da guerreira

Em momentos de carência queria que a minha gata fosse um cão. Daqueles que não largam os donos, que os lambem todos, que são verdadeiros amigos. Daqueles a que podemos dar um abraço apertado. Mas depois volto a mim e vejo que a minha gata é mesmo como deve ser, uma verdadeira felina, prima direita dos leopardos e dos leões.
Não liga a ninguém. A mim só me liga quando precisa de mim, quando quer comer, ou quando quer o meu colo numa noite fria de inverno. Defende o seu território como uma verdadeira fera, que o digam os gatinhos da minha irmã, que são recebidos com rosnadelas e pantufadas. Mas mesmo assim eu gosto muito desta peste. É a minha Safira, que apesar de tudo, me recebe em casa sempre com uma marradinha nas pernas. Aqui podemos vê-la a descansar, parece que não faz mal a uma mosca. As aparências enganam...

A propósito, há uma analogia engraçada entre cães/gatos e homens/mulheres aqui.

Estou de férias pela última vez este ano. Ando um pouco afastada dos blogs. Preciso muito de me afastar e de descansar. A partir do dia 7 voltarei a visitar os vossos cantinhos com mais frequência.