domingo, 4 de março de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Assassino Cego


Margaret Atwood
Fico tão feliz quando descubro um autor que me empolga e que me faz ficar cheia de vontade de conhecer o resto da sua obra. Aconteceu agora com Margaret Atwood. Li O Assassino Cego e fiquei rendida a esta senhora. Ela tem um dom, escreve maravilhosamente bem.


Mas ter um dom não significa que o acto de criar seja fácil. Conseguimos perceber que O Assassino Cego não foi um livro fácil de criar. Está ali muito trabalho, muito engenho e muita arte. Mas o que mais me tocou é que todo esse talento e todo esse trabalho assentam num profundo conhecimento do ser humano, das suas contradições, das suas fragilidades e das suas forças, no fundo, do limbo que pode ser a vida. Adorei.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As portas


Tenho uma louca paixão pelas portas de Lisboa. As portas antigas, de madeira, claro. As portas que fazem parte do nosso património porque são únicas e nossas. Fico tão triste quando vejo uma porta destas ser substituída por uma porta de alumínio igual a tantas outras. Devia ser proibido por lei. Sou radical, eu sei, mas não é um pecado que Lisboa perca verdadeiros monumentos com esta porta da foto? Esta teve sorte, foi preservada e está linda, mas quantas não se perdem todos os dias por esta cidade fora?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Home






Casa. Lar. Aconchego. Refúgio. Um livro para ler no sofá enquanto o sol invade a sala. A gata no seu cantinho predilecto a aproveitar o sol de Inverno. Home, sweet sweet sweet home.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro



Não sabia muito sobre Margaret Thatcher. A ideia que tinha era de uma política conservadora, implacável na concretização das suas ideias políticas. Via a governação de Thatcher como uma época de muitas medidas duras, muita contestação popular e  uma guerra à mistura. O filme confirmou todas essas ideias, mas deu a conhecer um lado mais íntimo e pessoal que gostei de conhecer, como por exemplo a sua luta para vencer num mundo de homens. Ainda hoje não existem muitas mulheres chefes de governo no Mundo. E isto porquê? Porque poucos homens se sentem bem no papel de marido de uma política profissional. É quase como ser o príncipe consorte, aquela figura que deve estar firme ali do lado, mas de preferência calada e discreta. Margaret Thatcher parece ter tido um marido que  sempre a apoiou na sua carreira política, que cuidou dos filhos quando foi preciso, que "segurou a casa e a família". O filme deixa transparecer algum ressentimento dos filhos em relação à ausência da mãe.
Ainda hoje é assim não é? Para se dedicar a fundo à carreira política uma mulher tem de ser solteira ou uma mãe ausente. Terá que ser mesmo assim?

PS: Meryl Streep está muito bem no papel de Thatcher, mas o contrário também não seria de esperar. Curiosamente, Meryl Streep conseguiu aparentemente conciliar uma carreira produtiva com uma família numerosa e unida. Será possível em todas as áreas menos na política?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

As palavras saem quase sem querer...




As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Violentam, enlouquecem, ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Acordo da Discórdia II

Não costumo concordar com João Pereira Coutinho, sobretudo por razões ideológicas, mas este texto que aqui transcrevo está maravilhoso e diz tudo o que eu penso sobre o Acordo Ortográfico. O texto foi publicado no jornal brasileiro Folha de S. Paulo.

"Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?



Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?


A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extra-terrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.


Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.


Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.


Questão de educação.


Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.


A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.


A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.


Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?


Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.


Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.


Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.


Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.


Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.


A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.


Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.


Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.


Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.


De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?"