segunda-feira, 2 de março de 2009

O Acordo da discórdia ou talvez não

Bandeira de Angola
O Acordo Ortográfico tem sido alvo de muita polémica. Para ficar mais esclarecida e poder tomar um partido nesta acesa discussão, andei a fazer umas pesquisas. Em primeiro lugar descobri que esta vontade de unificar a ortografia da nossa língua já começou em 1911, altura do primeiro acordo. Foi nessa época que passámos a escrever farmácia com f e não com ph, por exemplo.
Bandeira do Brasil
Este novo acordo nasceu ainda na década de 90, mas andou em banho-maria até 2004, data em que numa reunião da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), ficou decidido que bastaria que três países da comunidade o ratificassem para o acordo entrar em vigor. O Brasil foi o primeiro país a ratificar o acordo em 2004, seguiram-se Cabo Verde em 2005 e São Tomé e Príncipe em 2006. Isto significa que nestes países o acordo já está em vigor.
Bandeira de Cabo Verde
Em Portugal, o acordo sempre foi contestado por um grande número de intelectuais, sendo Vasco Graça Moura, o seu maior crítico. O Governo, sem falar muito no assunto, tratou de ratificar o acordo em 2008, mas o mesmo ainda espera aprovação do Parlamento e do Presidente da República. Caso seja aprovado, entrará imediatamente em vigor, apesar de ser permitida uma fase de adaptação de 6 anos, durante os quais serão permitidas as duas grafias.
Bandeira da Guiné Bissau
E agora, o mais importante: O que vai mudar com o novo acordo?

1º - O alfabeto português passará a incluir definitivamente as letras k, w e y. Isto não é grande mudança, a minha sobrinha de 7 anos já aprendeu o alfabeto assim.

2º - A supressão das consoantes mudas. Esta é talvez a questão que tem levantado mais polémica aqui em Portugal. Alguns linguistas defendem que vamos privar a nossa língua de mais um traço da sua origem latina. Eu pessoalmente, sei que me vai custar um pouco, mas apenas por questão de hábito. Aprendi a escrever assim, sempre escrevi assim, não vai ser fácil mudar de um dia para o outro. Mas se observarmos a questão logicamente, a língua é na sua essência oral. A escrita é apenas uma representação da oralidade. E se, como o nome indica, as consoantes são mudas, não estão lá a fazer nada. Nós pronunciamos ótimo e não óptimo, só para dar um exemplo.
Vamos a alguns casos concretos (isto não vai ser fácil!)

- c antes de c - transaccionar passa a transacionar; leccionar passa a lecionar.
Manter-se-ão as palavras em que o primeiro c é pronunciado, como: friccionar, perfeccionismo, porque neste caso não são consoantes mudas.
- c antes de ç - acção passa a ação; reacção passa a reação.
Irão manter-se iguais as palavras em que o primeiro c é pronunciado, como: fricção, sucção.
- c antes de t - acto passa a ato; actriz passa a atriz, projecto passa a projeto.
Irão manter-se iguais as palavras em que o c é pronunciado, como: bactéria, octogonal. Em Portugal manteremos facto, porque pronunciamos o c e porque fato para nós é outra coisa (terno no Brasil).
- p antes de c - percepcionar passa a percecionar.
Mantém-se opção, opcional, núpcias, etc, porque o p é pronunciado.
- p antes de ç - adopção passa a adoção.
Mantém-se corrupção, opção, etc, porque o p é pronunciado.
- p antes de t - Egipto passa a Egito; baptismo passa a batismo.
Mantém-se inapto, eucalipto, porque o p é pronunciado.

3º - Agora a questão dos acentos, que para mim é a mais complicada.

São suprimidos alguns acentos gráficos em palavras graves:
- crêem, vêem, lêem passam a creem, veem, leem :/
- pêra, pêlo, pólo passam a pera, pelo, polo :(

As palavras acentuadas no ditongo oi e ei perdem o acento:
- ficam assim estoico, asteroide, boleia, plateia, ideia.

Supressão do trema:
- aguentar, frequente, linguiça e agora devem ser os brasileiros que fazem :/

Supressão do acento circunflexo em palavras como:
- abençoo, voo, enjoo :(
Bandeira de Moçambique
Quando existem palavras que são pronunciadas de maneira diferente nos vários países, continua a existir a dupla grafia, como nos seguintes casos:

Portugal Brasil
característica caraterística
olfacto olfato
facto fato
súbdito súdito
súbtil sútil
bónus bônus
puré purê
metro metrô
cómico cômico

Bandeira de Portugal
Eu acho que, no final, não muda assim tanta coisa e que pode ser vantajoso unificar a grafia da nossa língua para que ela seja mais forte internacionalmente e para manter os laços culturais e históricos que nos unem.

Bandeira de S. Tomé
Agora aceito opiniões a favor e contra.

14 comentários:

Heloísa disse...

Isabel,
Essa é uma polêmica grande.
Já estamos adotando as mudanças, embora haja um prazo para isso.
Estou estranhando muito a retirada do trema, e dos acentos nos ditongos (ideia, assembleia etc.).
Acho que também será um pouco complicada a questão do hífen. Ainda não estudei as regras, mas penso que será a parte pior.
Enfim, sinto que não fomos convencidos da importância dessa unificação, mas espero que tenha bons resultados na união dos povos de língua portuguesa.

Inside me disse...

Confesso que escrever bem não é nada o meu forte...

E quer esteja de acordo ou não com este acordo, acho que o Português devia ser só um.

Gostei de ler... melhoraste um pouco mais a minha pouca cultura linguística.

Beijos.

ameixa seca disse...

Eu sou contra, vou ser sempre contra! Há muitas outras palavras que mudam e que não vão soar nada bem. Mas eu sou só eu e a minha opinião não vai mudar nada...
Não é a mesma grafia que vai unir os povos, existem é outros interesses por trás.... existem sempre!

Cláudia disse...

Bem, já sabes que eu sou contra. Se bem que, depois de ler algumas explicações, até sou capaz de aceitar algumas dessas mudanças. Agora outras, nem morta, que é como quem diz "di jêito manêra!!"

Por exemplo: ATO em vez de ACTO? ahahah
ATO é a 1ª pessoa do presente do indicativo do verbo Atar: "eu ATO o laço";
AÇÃO para mim tb não faz sentido: é que nós não pronunciamos o 1º A aberto, o 1º C de ACÇÃO serve para o abrir; além disso, fica horrível visualmente;
EGITO? ahahah que ridículo! recuso-me! Egito é nome de pessoa.
ESTOICO? Por amor de Deus! Isso pronuncia-se "estôico"!
Lamento imenso, mas nestes casos, não vou aderir a esse acordo nunquinha!
Mas adorei ler o teu post, está muito esclarecedor.

pepita chocolate disse...

Eu acho que assim estamos muitobem. A língua faz parte de nós, é a nossa impressão digital. porque diabo, havemos de mudar?

Bjs

Cenourita disse...

Eu sou completamente contra mas já estou como a Ameixinha, quem sou eu para mudar o que quer que seja...
Acho que vou sempre escrever tal qual aprendi.
Tens uns selinhos e um desafio lá na Tasca, passa por lá:)

Beijocas***

Cláudia M. disse...

Voltei.
Só para dizer que tenho pensado bastante nesta questão, até porque sou obrigada a isso, devido à minha área profissional.
Eu não queria ser o "velho do Restelo", agarrado ao passado (realmente já houve várias mudanças ao longo dos tempos), mas de facto há coisas que não fazem sentido, e ficam mesmo absurdas. Outras até já começo a encarar com uma certa normalidade. Mas lá que vai ser difícil, vai. Daqui a uns anos, vão os "putos" dizer aos profs. que eles estão escrever mal esta ou aquela palavra. E o que me chateia mais é que foi tudo resolvido pelos políticos no segredo dos deuses, sem haver debates, nem nada. Foi aprovado e pronto! Ai ai, que dor de cabeça!

Abóbora Amarelinha disse...

Pelo sim pelo não,prefiro nem comentar!

Arranco pelo sim pelo não com uma pinça!


Acham normal?

Só se for na conchichina!

Maldonado disse...

Gostei muito deste post, pois forneceu-me infos muito úteis.
Qualquer dia temos que voltar para a primária para aprendermos a escrever o português do Acordo Ortográfico... :))

Claudia disse...

Isabel,

Eu defendi o acordo com unhas e dentes, sempre fui admiradora do Houaiss, apesar de alguns amigos terem defendido a transformação do português do Brasil na língua 'brasileira' e a quebra definitiva de todos os vínculos com Portugal.

Eu defendo que a língua tem história e une os povos. Mudar a língua faz parte e ajuda a língua a crescer.

Mas no Brasil o povo aceitou as mudanças de peito aberto tanto que o acordo já entrou em vigor no dia 1 de janeiro.

O problema é o povo de Portugal que não larga o restelo de jeito nenhum, né Claudia? Isabel sua irmã está parecendo sim a velha do restelo! (risos).

Quer se queira, quer não, as línguas mudam o tempo todo e melhor que seja em benefício de uma unificação que vai beneficiar a todos o países de língua portuguesa. Portugal deveria se orgulhar, mas êta povo difícil de se agradar (risos!)

A língua portuguesa é testemunha do nosso passado comum, unida ela nos faz grandes, tanto diante do espelho como diante do mundo.

Chorar agora não adianta mais, a Inês está morta e a língua unificada.

Helô, concordo com você, deviam ter acabado com todos os hífens, coisinhas chatas esses hífens.

Beijos,

C.

Cláudia M. disse...

Voltei de novo, para responder à Cláudinha.

Desculpa, Cláudia, mas na minha opinião o Brasil aceitou depressa e bem, porque há muito poucas alterações. Já para nós, portugueses, são imensas, e algumas delas sem sentido.

Mas algumas mudanças eu começo a aceitar, desde que sejam justificáveis e sensatas.

beijinhos.

Isabel disse...

A discussão está ao rubro! É assim que eu gosto. Mas eu tendo a concordar mais com a Cláudia e com a Heloísa que com todos os outros. Algumas coisas vão ser difíceis de mudar, como alguns acentos, mas no resto eu estou a aderir ao acordo de corpo e alma porque não quero de modo algum que o Brasil passe a falar Brasileiro e não Português! Como dizia Fernando Pessoa, a minha pátria é a língua portuguesa e eu quero que a minha pátria seja bem grande.
Vejamos o exemplo da língua inglesa, vocês acham que ela é falada do mesmo modo em todos os países e regiões? Acham que um inglês de Manchester fala da mesma maneira que um americano do Tenessee? E que um australiano fala da mesma maneira que um londrino? Não, claro que não, mas todos escrevem da mesma maneira e isso é o que permite que todos continuem estejam unidos pelo inglês.
Bjs a todos e obrigado pelas opiniões.

Raquel Mendonça disse...

Oi Isabel, como vai?

Obrigada pela visita ao blog! Adorei o seus comentários e a sua visão sobre aquela questão da minha professora. Acho que você tem razão, sabe? A questão é que naquela semana eu estava "furreta" da vida com algumas coisas que havia ouvido e aquilo foi a gota final, sabe? E sendo a faculdade o lugar onde eu menos senti algum tipo de preconceito (linguistico ou cultural ou whatever) ouvir isso de uma professora e linguista doeu, sabe? Mas enfim, paciência. Fico feliz em ler aquilo que você escreveu: que a nossa pátria é a língua portuguesa e que esta deve ser muito grande!!!!!! Concordo plenamente! E quanto ao acordo, bom, são questões muito mais políticas do que linguisticas, não é? Que aceitemos e sigamos em frente. =)

Estarei de olho no seu blog, adorei mesmo! Fique a vontade pra voltar ao meu. Um beijo. Raquel

Tiago EmpregosRJ disse...

Eu era a favor do acordo,mas agora sou contra. Acho que vocês,portugues, não tem que mudar a sua maneira de escrever por causa de um acordo firmado não entre os povos de língua portuguesa,mas sim, pelos os governos desses países.Eu particularmente acho estranho ler um texto de um jornal português e tá lá escrito: detetou, ao invés de detectou, receção, ou invés de recepção. Isso até gera confusão para um brasieiro não acostumado a ler sem esses ps e cs.Sob meu ponto de vista, em relação ao Brasil, gostei porque facilitou a escrita,principalmente, os hífens ahaha!